O galão das professoras

Sábado de manhã, as professoras da Pedro de Santarém e da José Gomes Ferreira, sentam-se de cabelo armado e polo da Quebramar nas mesas do Califa. Bebem um galão, comem torradas, lêem o Expresso com vagar. Fazem mentalmente certos e errados nas notícias, como se corrigissem testes a tinta encarnada. Distraidamente procuram no meio das letrinhas pretas uma gralha, uma inconsistência. No Califa, as professoras – ao contrário dos outros mortais – encontram sempre lugar sentado e conseguem também a proeza de comunicar mudamente com os empregados mais rápidos do mundo. Nunca ninguém ouviu as suas trocas de palavras, nem tão pouco testemunhou um sorriso de agradecimento ou alguma confusão com o troco.

Nas vitrines da pastelaria, os doces indecentes gostam de provocar as professoras. Chantilly e frutos vermelhos, fios de ovos, chocolate, a massa quebrada reluzindo em calda de açúcar. Mas, as professoras bebem o café impávidas, ignorando-os. Ignoram também os maridos que por vezes se sentam na sua frente – óculos na ponta do nariz, cabelos brancos, mastigando o Diário de Notícias –  e a mesa ao lado onde a família com miúdos veio a Benfica visitar os avós. E, só lamentam não se poder acender um cigarro, para a manhã ser ainda mais doce. Ponto final.

(Na imagem: Os doces indecentes do Califa)

fotografia

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s