Chuva

Chuva: Uma crónica em três tempos

  1. Quando eu era miúda, o meu pai vestia-me com um fato impermeável encarnado que me cobria da cabeça até aos pés e dizia: Vamos andar à chuva. E atravessávamos a mata deserta até ao outro lado para ir comprar o jornal. Se calhar isto só aconteceu uma vez, mas gosto de imaginar que se repetia muitos sábados, essa coisa deliciosa e transgressora que era ir apanhar chuva quando todos ficavam em casa.

2. No ciclo, eu e as minhas colegas não perdíamos uma oportunidade de apanhar uma molha e chegar a casa completamente encharcadas, os cabelos as escorrer, os livros dentro da mochila a engelharem, numa recriação do look da ‘Princesa e a Ervilha’ – aquele primeiro momento em que ela bate à porta do palácio numa noite chuvosa. Depois era tirar a roupa e regressar ao conforto mergulhando num banho quente.

3. Hoje quando saí do trabalho chovia que deus a dava. Com trovoada e tudo. Vamos andar à chuva, pensei. Não tenho medo de apanhar uma molha. Saí com o impermeável, as pessoas abrigadas nos toldos e arcadas e eu pisando as poças de água e a sentir o barulho das gostas no capuz. Foram dez minutos a andar e estava um pinto quando cheguei ao meu destino. Mas, não me diverti muito. O tempo todo a pensar que o computador se podia molhar, que o cabelo ia ficar uma miséria, que os sapatos estavam a estragar-se. Tornei-me uma chata.

(Imagem: Banhos quentes – depois da chuva? – vistos por Lee Price)

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